Apenas uma questão de tempo | 2008

O corpo-imagem estirado no chão frio da galeria anuncia a despedida de si mesmo. De suas entranhas a transmutação constante. Quem poderá estancar o fluxo poderoso da vida? Diante de nós, o desmoronar silencioso que tanto apavora. Shiva, o destruidor. Finar-se a cada instante, envelhecer, craquelar-se. A eternidade posta em cheque na fragilidade da matéria que se esvai. A ruína da carne. Apenas uma questão de tempo, murmura a aparência do corpo.
A decomposição do papel de arroz – onde a juventude está impregnada – anuncia a passagem para outro plano de existência: a perenidade conclamada no punctum primordial da imagem. O pungir necessário à permanência de significado que acompanha toda a trajetória poética da humanidade. A individualidade assimilada pela sensibilidade do outro. A coletivização do ser. Cabe a cada um de nós devorar este corpo-imagem para que ele sobreviva. Cabe a nós metabolizar o brotar dos grãos de arroz que negam a inexorabilidade do fim.

Armando Queiroz


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